10/03/2008
Bandeira
O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão.
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos
Meu amigo Osmar descobriu pra mim o poema acima. E eu penso que o crítico revela o que o artista oculta, analisa o que o artista sintetiza. E nesse poema de temática infantil temos as mais complexas e sutis maturidades.
Reparemos nas rimas:
asa - casa
vão - prisão
nasceu - morreu
voou - enterrou
passarinho - carinho
Esses pares de palavras que são semelhantes pelo som, são contradizentes pelo conceito.
Pois a casa abriga, a asa livra.
E é justamente a ambiguidade a maior virtude do poema.
Podemos dividir as palavras rimadas em dois paralelos semânticos:
o primeiro seria: asa, vão, nasceu, voou, passarinho
e o segundo: casa, prisão, morreu, enterrou, carinho.
E o que realmente surpreende é o conceito que se faz de carinho. A primeira intenção, sobretudo dos que vêem a poesia sobre um prisma essencialmente romântico, seria atrelar a palavra carinho à palavra passarinho. Assemelhá-las não apenas foneticamente, mas também conceitualmente.
Eis que esse fabuloso poeta moderno, mantendo a proximidade sonora de carinho e passarinho, afasta seus conceitos de forma diametral, sutil e genial. Esse é sem dúvida um poema que se deve ler com os olhos muito bem abertos.
Se o passarinho na sua asa, nasce e voa em vão. No carinho de Sacha, ele encontra uma casa, que é de fato uma prisão, e assim, morre, e é enterrado.
Um gesto de boa intenção (o carinho) traz, na sua ponta, gesto de má conduta (cárcere e morte). Uma ambiguidade fatal. E de fato as ações humanas são eivadas de ambiguidades. Os nossos costumes, os nossos hábitos, a nossa linguagem, a nossa hipocrisia assiduamente fazem com que nossas atitudes possuam dois gumes, como uma faca. Ou até mais.
Porém, há outro paralelismo no poema que instaura uma nova ambiguidade.
O poema é todo construído em redondilhas maiores, versos com 7 sílabas poéticas, umas das mais correntes formas medievais; e, por isso, chamada, pelos renascentistas, de medida velha. Isso atesta o fato de que os modernos frequentemente recorrem ao antigo, buscam a nova idade (novidade) na antiga idade (antigüidade).
Mas o mais interessante é a ocorrência de enjambement, que se faz presente quando um verso trepa, monta, invade o outro. E isso acontece do primeiro para o segundo verso da primeira estrofe, quando a palavra Livre, que sintaticamente pertence ao primeiro verso, entra no segundo, para que seja mantida rígida a forma. E o poeta de maneira ambígua, se mantém preso à forma antiga para que possa alcançar maior liberdade e inovação poéticas
E esse fenômeno volta a ocorrer na segunda estrofe, mais precisamente do quarto para o quinto verso, com o advérbio de lugar No jardim.
E essa recorrência, não é acaso, acidente, ou coincidência, mas é fruto do cálculo e forte consciência poética.
Pois esse enjambement inaugura um paralelismo e cria, virtual e magistralmente, um novo verso dentro do poema, qual seja: "Livre/No jardim"
E aqui está a nova ambiguidade a que o poema se refere, pois o ar, o céu, representam metaforicamente a liberdade, daí os devaneios passarinheiros dos mais diversos poetas, e aqui podemos citar Mário Quintana:
"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês"
ou, os ainda mais célebres dos seus versos:
"eles passarão
eu passarinho"
A terra, ao contrário, representa a prisão, a falta de liberdade pra voar que a força G de Newton nos impõe.
Mas é justamente ao perder a liberdade de vôo na casa/prisão de Sacha, que o passarinho prefere morrer para que enterrado recobre a sua liberdade de voar. A morte, o funeral, esses fatos tão funetos, ambiguamente, recobram a liberdade do voador, esse fato tão fantástico.
E creio que não foi por acaso que Manuel Bandeira visualizou nos jardins as faixas de terra mais próximas do espaço aéreo, posso supor que isso se deve às cores e aos odores esfuziantes que os eles nos oferecem.
E com essa visão do jardim, o poeta moderno reafirma um conceito romântico de forma inovadora, conceito que ele havia rebatido quando opôs ao passarinho o carinho da menina.
E com essas ambiguidades todas, que esse genial poeta encharca de signifacado um poema, à primeira vista, banal. E, além disso tudo, sugere uma reflexão a respeito da domesticação dos animais, que pode ser extendida, sem exageros, a civilização dos seres humanos.
Estaria certo Rousseau? O homem selvagem goza de maior liberdade ao prescindir das etiquetas sociais? Ou a hipocrisia e a dissimulação viriam para preservar, de alguma forma, um primeiro instinto selvagem de liberdade e isolamento no homem civilizado? Hobbes nos diz que o homem selvagem abre mão de certa liberdade, para em contra partida tirar proveito de certas situações da vida em grupo. Seriam as ambiguidades e contradições uma forma, ainda que inconsciente, do civilizado grilhado pelas regras sociais procurar recuperar a sua liberdade solitária?
Nietzsche e Foucault perceberam que as relações humanas são intrincados jogos de poder, que se dão pelos discursos, diálogos e comunicações. E a dissimulação e a hipocrisia, o discurso redundante, vicioso e enviesado, servem justamente para avoidar um completa revelação de si mesmo ao outro. Sua função é manter o oculto, o segredo, o mistério, a dúvida e a desconfiança. Para que as coisas nunca estejam muito bem ditas e que sempre se tenha algo a mais para se dizer, sempre haverá o não-dito.
De tal maneira que analizadores da lingugem já tentaram lipoaspirá-la de todo excesso, de toda a gordura, de todo exagero e confusão, e depois de séculos, concluíram que tal tarefa é impossível.
O fato é que, nas prisões telúricas, há faixas sensíveis que devem nos lembrar ( e a verdade em grego significa justamente "lembrar") a liberdade que tivemos e que teremos. E esses meios de recordação são os jardins e são, também, as obras de arte. E aqui se instaura um profundo carácter ético e moral da arte, que deve nos redizer, de forma lúdica e sensível, o nosso direito a ser livres. Não deve ser apenas um mero entretenimento para matar a tempo, como a indústria cultural capitalista, tão bem criticada pela escola de Frankfurt, nos quer fazer crer.
E outro ponto de reflexão que esse poema pode propor é se a moderna aerodinâmica, se o vôo mecânico dos pássaros de aço movido a combustível, nos trazem mais liberdade, ou se apenas nos trazem mais prisão, quando aumentam, simultaneamente, nossa velocidade e nossa pressa.
26/02/2008
Incomensurabilidades
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. "
(Álvaro Campos)
Irracional: tal palavra, em sua origem grega, significa o que não tem medida. E o intelecto humano desde muito tempo se ocupa justamente em medir. As ciências exatas, meninas dos olhos das ciências em geral, se denominam exatas justamente porque crêem mais exatas as suas medidas. E tudo isso sobre as bençãos da linguagem matemática.
Porém, na Grécia pré-Socrática houve um episódio curioso, onde a própria matemática, mas precisamente a geometria (geo = terra; metria = medida) euclidiana tropeçou numa das pedras da imensurabilidade. Os pensadores pitagóricos, ao estudar as relações entre os triângulos e os quadrados, (e também os pentágonos, mas nada que lembre os EUA) perceberam que não era possível uma medida exata da raiz de dois, na verdade, àquela época eles chegaram a concluir que tal medida não era apenas inexata, mas inexistente. Pois não conseguiam achar um número que fosse mensurável e que multiplicado por ele mesmo fosse igual a dois. E de fato a raiz de dois é um número infinito, não no sentido de ser o infinito em si, mas no sentido de que nunca chega ao fim, há sempre mais um algarismo. O número que representa a raiz de dois não procede da razão entre dois númoero inteiros, daí ser dito, como outros tanto números, irracional.
E esse é um entrave à racionalidade que se dá no mundo abstrato das matemáticas. Imagine no mundo concreto. Qual a razão entre um tomate e uma laranja? Ou até a razão entre dois tomates? Difícil de dizer. E diante disso vejamos o que diz Clarice Lispector:
"...Não me posso resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo..."
Não há razão entre cadeiras e maçãs, como não há razão entre tomates e laranjas. E talvez nem a haja entre dois tomates, porque se um 2 é sempre idêntico a outro 2, até hoje não vi dois objetos que não apresentassem diferenças, mesmo que sejam dois tomates, o máximo que se consegue nesse mundo real são semelhanças, e essa distância entre o que se assemelha e o que se identifica acarreta sérios problemas à racionalidade, à medida, ao padrão.
Porém, se não há razão entre cadeiras, tomates, laranjas, bananas, cadeiras, pães, bifes, cervejas, softwares, como fica a vida em comunidade do marceneiro, do tomateiro, do laranjeiro, do bananeiro, do padeiro, do açougueiro, do cervejeiro, do Bill Gates, do Steve Jobs, etc?
É nesse instante que surge uma abstração com a finalidade de servir como unidade de medida, fator racional entre esses objetos díspares. E que nova medida é essa? Quem é essa abstração racional?
Pois bem: A Moeda.
Nas antigas Metonímias: o níquel, o cobre, a prata, o ouro. Nas modernas nomenclaturas: o papel-moeda, os cheques, os cartões, os meios de pagamento.
Porém essa abstração monetária também possui constituição concreta, e o que surge para representar as mercadorias se tranforma em mercadoria itself e aí só aumenta a complexidade.
Então, se faz bem fácil perceber que a moeda não é uma medida de valor absoluta, que todos os preços são relativos. Até andou se procurando há alguns séculos a tal da medida invariável de valor, que fosse a medida-base de todos os outros valores, mais ou menos como os alquimistas procuravam o elixir da eterna juventude. Mas, ao que parece, já abandoram os economistas essa empreitada quixotesca.
O que se sabe é que de alguma forma os preços se formam. Uma coisa vale não só pelo valor (leia-se utilidade) que se dá a ela, mais pelo valor que se dá a todas as outras coisas que existem e possuem utilidade no mundo junto com ela, bem como pelo trabalho que se faz pra fabricar as coisas e pelo valor que têm os insumos, os fatores que entram de um lado da máquina pra que do outro lado saia o produto acabado, ou melhor, o produto final.
Em sumo, o valor de cada coisa interfere no valor de cada coisa e o valor de tudo sofre a interferência do valor de tudo mais. Acho que já se pode perceber aqui os limites da racionalidade nas ciências econômicas.
Mas as coisas não param por aí. São notórias as duas curvas (ou rotas flexas como prefere a poesia de Márcio-André) dos estudos econômicos: a tal da demanda e a tal da oferta, e ambas deixam transparecer o problema da irracionalidade.
Na curva de demanda, que seria o lado do consumidor, o problema está na aferição da chamada utilidade, pois o preço que alguém está disposto a pagar por alguma coisa é uma função da renda que essa pessoa carrega e da utilidade que ela enxerga no referido bem. A racionalidade das rendas é algo bem mais conformável, é bem fácil saber quanto você tem no bolso, na carteira, na conta-corrente, ou na conta investimento, se a memória falhar basta um extrato por um tarifa assaltante. Desprezados aqui os efeitos da inflação e dos roubos propriamente ditos, aqueles à moda antiga.Porém, a medida das utilidades é algo que foge muito ao conceito de racionalidade. Afinal, o que são os valores que damos às coisas? Por que são esses valores? Parece bem claro que a valoração que atribuímos é muito mais uma questão de delírios, devaneios, sonhos, imaginações, expectativas grossamente irracionais. Não me parece que o valor que damos aos bens seja o caso de calcularmos, através da matemática integral, diferencial e infinitesimal, a utilidade marginal dos bens. Como quer crer a economia mainstream.
Logicamente, há o conceito de transitividade, que siginifica: se "A" é preferível a "B"; e "B" é preferível a "C"; então, "A" é preferível a"C". E querem crer que é através dessa análise lógica que conferimos valor e utilidade às coisas. Mas bem sabemos que em nossa mente, se "A" é maior que "B", e "B" é maior que "C", "C" pode ser maior que "A" e "B" juntos, "C" pode ser maior que o próprio "C", podemos preferir "B" a "B", para depois preferir "A" e "C". E a racionalidade encontra mais problemas.
No outro lado da moeda, isto é, na curva de oferta, o problema da racionalidade é justamente um problema de lógica, mas propriamente um tipo de falácia, uma tautologia, um argumento circular, que dá voltas sobre si mesmo, como uma cobra que morde a própria cauda. Vejamos:
Os preços de oferta são calculados através do custo marginal dos bens, isto significa dizer que os preços do bem se equivalem ao custo de se produzir mais um bem. E esse custo, por sua vez, é uma função da produtividade dos fatores, ou seja, quanto se terá que investir em capital pra produzir aquele bem. Porém, o capital não é homogêneo, já se fala em capital humano, social, industrial, ambiental, tecnológico, a cada hora surge um capital, e isso, por si só já demonstra a heterogeneidade do capital, porém, até mesmo dentro de suas classe específicas, os capitais se diferenciam, afinal, você, se chefe, e seu colega de trabalho são capitais humanos, e mesmo sem conhecê-los tão bem, eu aposto uma quantia razoável que vocês são bem diferentes.
Então, para se racionalizar esses capitais distintos, usasse uma unidade de medida comum: a moeda, novamente. A produtividade do capital, numa cadeira de produção racional, é igual a remuneração desse capital. Isto é, a sua produtividade é o seu salário.
O problema é que para calcular a produtividade dos capitais é preciso que se tenha um fator monetário comum, que é a remuneração dos capitais, porém, para calcular a remuneração dos capitais usa-se como base as suas produtividades, esse é o círculo vicioso dos argumentos e medições da economia "orto"doxa. Para se calcular uma coisa usa-se outra, mas pra se calcular essa outra usa-se aquela uma. E foi esse insulto à racionalidade por parte dos estudos econômicos dominantes que muitos marxistas criticaram.
E os marxistas também deram suas contribuições nas teorias das comunicações e da cultura, sobretudo a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, e os Cultural Studies de Londres, que recusaram o método quantificativo usado principalmente pelas Escolas Norte-Americanas. Tais estudiosos pretendiam estudar os problemas midiáticos com base apenas em tabelas de questionários e peripécias estatísticas. Ao que tais marxistas respoderam: "os processos culturais não se quantificam, porém, não podem ser deixados de lado numa teoria da comunicação que se queira minimamente responsável. Ao que os mainstream respodiam: "nós queremos um teoria que possa ser medida e testada."
E nessa obessessão pela medida, vamos dando testadas até os dias de hoje. E é bom que se aproveite o insejo para se dizer que nem Marx nem os marxistas foram profetas irrepreensíveis, mas foram sujeitos de análises muito valiosas, e se os planos de ação futura dos marxistas falharam em muitos pontos, não significa que suas críticas não encontrem pertinência.
É costume se ignorar toda a teoria crítica marxista por sujeitos como Fidel Castro, Stalin, Pol Pot terem cometido atrocidades em nome de um suposto socialismo. Isso é tão ridículo como negar toda a teoria ortodoxa pelas sandices da família Bush, de seus asseclas e seus et ceteras.
Fechados esses parênstesis, tocarei apenas em mais um ponto das tensões entre racionalidades e irracionalidades, algo que julgo muito curioso.
O sentido mais aguçado na raça humana é a visão, e é justamente ela que capta a luz. E a palavra luz e a raiz etimológica de duas palavras que são praticamente antônimas, a saber: elucidação e alucinação.
A luz é metáfora corrente para conhecimento, ciência, sabedoria, donde a palavra elucidação, porém se essa luz não tiver uma racionalidade, se essa luz ultrapassar as medidas, torna-se loucura, alucinação, talvez por isso se diga que todo gênio é louco, pois ele deve se situar nesse limite entre luz em boa medida e luz além das medidas. Eles tangem a linha do que compreendem os elucidados e do que só compreenderão os alucinados.
Não cabe aqui discutir quem tem razão de se auto-denominar elucidado, e alcunhar os demais de alucinados.
O fato é que talvez por essas questão entre o que é mensurável e o que é sem medida que tenha sido dito e esteja escrito:
"Paulo, porém, falou: Não estou louco. Pelo contrário, digo palavras de verdade e de bom senso."
(Atos dos Apóstolos cap: 26; ver: 24 )
E ainda Paulo, em sua primeira epístola aos coríntios:
"Porventura não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?" (cap: 1; ver: 20)
"Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens" (cap; 1, ver: 25)
Portanto, desconfio dos filósofos análiticos que querem achar uma medida para refutar Deus.
E também desconfio do filósofo alemão Nietzsche, quando esse, através de uma peripécia lógica e análica, justo ele que se quis tão longe dos racionadores, me diz que Deus é morto porque sua onipotência se contradiz quando não pode criar uma pedra tão pesada que não possa carregar.
E por isso desconfio dessa sanha humana pela medida e pelo padrão. Como desconfiaria de uma sanha humana pelo desmedido. O fato é que estamos entre essas coisas, entre as coisas, e seus contrários, que também são coisas, ainda que outras. Estamos entre o desconhecido e o conhecido, e não conhecemos nem desconhecemos, plenamente.
Por isso acho que uma posição de ceticismo deve ser fruto de uma posição de humildade. Quando Sócrates diz que sabe que não sabe, a ênfase deve ser dada no "não sabe". E assim faz o cético humilde. O cético arrogante coloca todo o seu foco no primeiro "sabe". E assim, no seu niilismo dogmático, acredita que já sabe, antes de todo mundo, que ninguém soube nem sabe nem jamais saberá de nada.
Me parece muito pertinente fechar o texto com esse paradoxo de Sócrates, justamente por serem os paradoxos afrontas à lógica e a racionalidade, mas não me poupo de reafirmar que diante do irracional, do ilimitado, do inexplicável, do inexprimível, do inteligível, me parece muito mais elegante uma postura de humildade. Embora a arrogância e a vaidade nos queiram fazer sempre esquecer a segunda metade da frase, e dizer apenas: "eu sei" e olvidar o "que não sei de nada".
Esse assunto ainda poderia se alongar, poderia se discutir se o fato de não se saber, pode de fato esconder uma covardia, uma acomodação, algo que chamo de "ceticismo preguiçoso", por exemplo, já que não se pode saber de nada, eu não quero saber de nada mesmo.
O fato é que sabemos de algo; mas, na medida infinita das coisas que se há pra saber, esse algo que sabemos e sempre como nada. É como caminhar um caminho sem fim. Não há dúvidas que se caminha, como não há dúvidas que não se chega um centímetro mais perto do final.
E, por isso, sempre que se olhar pra frente, se mirar o horizonte, se vislumbrar o infinito, se perceberá que não se sabe. Mas sempre que se virar o pescoço e olhar pra trás, o tanto que já se caminhou, verá que alguma coisa se sabe. E se se olhar simultaneamente pra frente e pra trás, verá que se sabe e que não se sabe. E essa beleza é que é muito bela, e que me parece fazer todo sentido.
Para os preguiçosos, ou apressados, que apenas querem chegar ao fim, esticar a fita métrica e dizer: "é tanto". Realmente uma jornada dessas não é muito conveniente. Mas que valorizam o caminho que se caminha a cada passo, e não a chegada tão-somente, uma viagem dessas é a maior felicidade que se pode almejar.
18/02/2008
Perfeito
(Gilles Deleuze)
19/01/2008
Versão
"Mil cairão a teu lado, e dez mil a tua direita mas eu não serei atingido."
Filmes
1.Fight Club
2.21 Grams
3.Matrix
4.Land Of The Blind
5.Closer
6.AmoresPerros
7.Adaptação
8.Quero Ser John Malkovich
9.Huricane
10.A Última Ceia
11.Adivinhe Quem Vem Pra Jantar
12.A Vida é Bela
13.Declínio do Império Americano
14.As Invasões Bárbaras
15.Cidade de Deus
16.Carandiru
17.Amarelo Manga
18.Gandhi
19.O Gosto dos Outros
20.Os Sonhadores
21.Traffic
22.O Mercador de Veneza
23.O Auto da Compadecida
24.Dogville
25.Manderlay
26.OldBoy
27.Paradise Now
28.New Orleans
29.Meu Tempo é Hoje
30.Cinema, Aspirinas e Urubus
31.Cachê
32.O Cheiro do Ralo
33.Proibido Proibir
34.Bom Pastor
35.Winters Solstice
36.O Labirinto do Fauno
37.Bonecas Russas
38.Ânsia de Amar
39.Little Children
40.O Ano em que Meus Pais Sairam de Férias
41.Lavoura Arcaica
42.Um Estranho no Ninho (a flew over the cuckoo´s nest)
43.Laranja Mecânica (the clockwork orange)
44.Casa de Areia
45.Um Copo de Cólera
46.Princesas
47.Finding Forrest
48.Náufrago
49.Apocalipto
50.Pollock
51.Modigliani
52.Zelig
53.Amnésia
54.A Lenda de Beowulf
55.O Amor nos Tempos de Cólera
56.Sombras de Goya
57.A Vida dos Outros
58.A Bússola de Ouro
59. I Am Legend
60.Ratatouille
61.Os Inimigos do Império
62.O Conde de Monte Cristo
63.Sweeney Todd - The Demon Barber of Fleet Street
64.Feliz Natal
65.Asas do Desejo
66.No Country For Old Men
67.Whisky
68.O Passado
69.There Will Be Blood
70.A Lula e a Baleia
71.O Profissional
72.Reencarnação
16/01/2008
Tradições
"O pai me disse que a tradição é lanterna
Vem do ancestral, é moderna
Bem mais que o modernoso"
diante disso eu escrevi, com meu amigo Rômulo Dias:
Atordoados estão
tantos salões na cidade
não pode ser de verdade
o samba que hoje se faz
Descoroados então
quantos barões, baluartes
pilares de toda a arte
de realezas reais
O samba que hoje se faz
possui durezas demais
nas sutilezas banais
vai-se esquecendo de tudo
O samba que ontem se fez
há de provar sua tez
há de provar de uma vez
que não se cala um surdo
E assim, o mestre-sala jamais cala seu sapatear
E já se fala de outras alas que vão retornar
ao samba de Ismael, Sinhô.
E assim, a minha escola que é Cartola e também Noel
Mostra na sola que essa é hora de ser bacharel
O falso menestrel findou.
14/01/2008
Ciclos
Há 15-20 anos atrás era de praxe ridicularizar os chineses, população milenar e vasta não só demograficamente como culturalmente, pela sua pobre frota de bicicletas frente às imponentes frotas de tetracicletas motorizadas bebedoras de derivados de combustíveis fósseis e eliminadoras de poluentes de países baseados no american way of life de consumo e nos modelos tayloristas e fordistas de produção, que não só os EUA, mas também Alemanha, França e Japão, para citar um último exemplo bem pertinho dos chineses.
Pois então, hoje em dia, depois de mais de um quarto de século de crescimento econômico beirando sempre o segundo dígito, a China alcança um dos jardins do sonho capitalista, qual seja: alta produção e consumo de veículos auto-motores.
E agora dizem pra mim e para os chineses que ser-humano avançado mesmo anda de bicicleta, automóvel é coisa de selvagens, povos bárbaros, esses tais de mongóis.
E assim caminha a humanidade, entre seus ciclos, onde, num instante, 4 é maior que dois e, noutro, 2 é melhor que 4.