13/09/2009

Neo Quixote

O que me impressiona em Matrix é o carácter quixotesco de Neo. The number One.

A confusão entre realidade e ficção, bem como o embate entre criador e criatura. Homem vs Tecnologia.

Messianismo ou Loucura?

07/09/2009

Vide e Duvide


Ensaio Sobre a Cegueira - de Fernando Meirelles, baseado em José Saramago.





Parábola do Cego - de Pieter Bruegel, baseado em Jesus Cristo.

18/08/2009

Influências

Num livro que Osmar me emprestou, Joel Rufino dos Santos enumera Einstein, Freud e Marx como os pensadores mais influentes do século XX.

Interessante notar que todos possuem ascedência judaica.

Mas mais interessante é perceber que um de meus pensadores prediletos, o etnólogo francês, Claude Levi-Strauss, teve sua teoria antropológica decisivamente influenciada por Marx e Freud.

De Freud ele herdou a noção de inconsciente, e de Marx herdou o conceito de infra-estrutura social. Substituindo a infra-estratura econômica de Marx, por uma infra-estratura inconsciente, cravada nos mitos, costumes, etiquetas, parentescos. De maneira mais profunda do que simplesmente nas relações de trabalho, produção, troca e consumo.

Mais tarde Levi-Strauss nega, condena e critica muitos preceitos das teorias marxista e freudiana. Num exemplo de parricídio muito comum na história da ciência moderna.

Porém, creio que a maior influência sobre Levi-Strauss veio do estruturalismo de Ferdinand Saussure, por razões óbvias. E aí está um dos motivos pela recusa à Marx, visto que a teoria marxista consiste numa espécie de glorificação da história, herdada de Hegel, ao passo que o estruturalismo sausurreano é sincrônico, isto é, crê num diminuto poder da história, sobretudo nas sociedades primitivas, que a substituem pelas narrativas mitológicas. E dizendo os mitos muito pouco sobre a formação do universo, versam demais sobre a formação daquela população específica.

Voltando a dar maior atenção à tríade citada por Rufino, podemos dizer que, hoje em dia, apenas Einstein sobrevive, com sua teoria da relatividade. Embora um pouco chamuscado por alguns paradigmas da teoria quântica. Que ele desacreditou ao dizer que Deus não joga dados.

Já Marx não é quase mais estudado nas escolas de economia. Como já ouvi dizer que o mesmo ocorre com Freud nas faculdades de psicologia. E uma das maiores críticas que ambos sofrem é a falta de rigidez de sua teorias. A falta de empirismo, por assim dizer. Miguel Nicolelis, paulista, palmeirense, e um dos maiores neurocientistas do mundo, ao ser perguntado sobre a teoria freudiana, critíca a falta de dados mensuráveis. Mesma crítica que sofre Marx. E que leva Karl Popper, epistemologista austríaco, a se quer considerar a psicanálise e a teoria marxista como ciência.

Podemos dizer que, em linhas gerais, Einsten foi um pensador da 'physis', Freud foi um pensador da 'psiqué' e Marx foi um pensador do 'ethos'.

E apenas o primeiro ainda permanece com sua reputação relativamente imaculada. E creio que isso se dá pelo fato de que por mais complexos que sejam o comportamento da natureza, me parecem sempre muito mais simples do que os comportamentos da humanidade, embora essa se origine daquela e faça dela parte indispensável a si.

15/08/2009

Albert Camus

"Após cinco minutos de suspensão, durante os quais o meu advogado me disse que tudo corria bem, foi ouvido o Celeste, que era citado pela defesa. A defesa era eu. Celeste deitava, de tempos a tempos, olhares na minha direção e rodava o panamá nas mãos. Trazia o terno novo que punha aos domingos, quando ia comigo às corridas de cavalos. Mas julgo que não conseguira por o colarinho, pois apenas um botão de metal lhe conservava a camisa fechada. Perguntaram-lhe se eu era seu cliente e ele respondeu: - Sim, mas era também meu amigo - ; o que pensava de mim, e ele respondeu que eu era um homem; o que queria dizer com isso, e ele declarou que toda a gente sabia o que isso queria dizer; se notara que eu era taciturno, e ele reconheceu apenas que eu não falava por falar. O advogado de acusação perguntou-lhe se eu pagava regurlamente as minhas despesas. Celeste riu-se e declarou:- Isso era entre mim e ele. - Perguntaram-lhe ainda o que pensava do meu crime. Pôs então as duas mãos na barra e via-se que preparara qualquer coisa. Disse: - Para mim, foi uma desgraça. Toda a gente sabe o que é uma desgraça. Pois bem, na minha opinião, foi uma desgraça..."

(em O Estrangeiro)

Gaston Bachelard

"Tem-se repetido com frequência, a partir de William James, que todo homem culto segue fatalmente uma metafísica. Parece-nos mais exato dizer que todo homem, no seu esforço de cultura científica, apoia-se não exatamente numa, e sim em duas metafísicas e que essas metafísicas naturais e convincentes, implícitas e tenazes, são contraditórias. Dando-lhes apressadamente um nome provisório, designemos essas duas atitudes filosóficas fundamentais, tranquilamente associadas no espírito cientíifico moderno, pelas etiquetas clássicas de racionalismo e realismo..."

(em O Novo Espírito Científico)

Merleau-Ponty

"..., a metafísica, reduzida pelo kantismo ao sistema de princípios empregados pela razão na constituição da ciência ou do universo moral, radicalmente contestada, nessa função diretriz, pelo positivismo, no entanto, não cessou de levar uma espécie de vida clandestina na literatura e na poesia, onde hoje os críticos a reencontram..."

(em O Metafísico no Homem)

04/07/2009

Comer e Comer

Beijo seus seios.

Beijo
seus seios fora
de suas naturais utilidades

são como inúteis
seios fora
do período lactante

tão desnecessárias bocas
abertas
quando não há alimento

a boca moça madura inútil
baba
os seios murchos desnecessários moços


São muitas as semelhanças entre o ato de fazer sexo e o ato de se alimentar.

Sobretudo, são atitudes de extremo valor fisiológico. O sexo e a alimentação são a preservação das espécies. A alimentação a preservação imediata, come-se para manter-se vivo, e viva a humanidade através de ti. O sexo a preservação mediada, faz-se para trazer outrem à vida, e a humanidade viva através da sua descendência.

E participando de tamanha utilidade biológica, não é de espantar que tanto sexo como alimentação sejam atividades extremamente sinésticas. Me custa lembrar de outras atividades que envolvam todos os sentidos concomitantemente e em tamanho grau de êxtase e intensão.

Pois alimentar-se é o paladar e o olfato que percebem os alimentos, e por mais óbvios que sejam esses sentidos no ato da alimentação, não raras vezes se confundem. E por isso quando temos secreções a nos entupir as vias nasais e a nos interromper o sentido do olfato, julgamos que muitos alimentos perdem o gosto, o paladar. Na verdade, nada mais é isso do que nosso confusão sinestésica diante dos alimentos. Entre o que é cheiro e o que é gosto.

Mas além dos dois sentidos químicos, tão basilares no alimentar-se, também temos os demais sentidos se fazendo presente. Pois o vislumbramento do alimento pronto e disposto à nossa frente, bem como o contato do alimento com nossas mãos (reduzido pela civilidade dos talheres) e o contato do alimento com todo nosso sistema digestivo (lábios, língua, palato, dentes, garganta, etc) são a prova da importância da visão e do tato no alimentar-se.

Bem como o som do alimento sendo preparado e sendo mastigado e deglutido, por prazerosos que são, demonstram a importância da audição no alimentar-se.

E assim também se dá o sexo. Com a obviedade da importância do tato (reduzido pelo risco de doenças venéreas). E com a importância do ver, do ouvir, do cheirar e do provar. E não deixa de ser interessante que a palavra provar esteja associada à ideia de testar o paladar.

E sendo tarefas de primordial função biológica, não é de se espantar que tanto o sexo quanto a alimentação tenham sido elaboradas de maneira irresistível pela natureza. E também não é de causar espanto que sejam questões culturais de extrema importância.

Podemos dizer que a função de procriação do sexo e de reenergização dos alimentos foram bastante reduzidas em detrimento das funções sociais de ambos.

E se os homens não podem se livrar totalmente dos limites naturalmente impostos, se esforçam por imaginar, criar e recriar novos limites divinos, com inteligência, através da cultura.

Em diversas sociedades pagãs existiam orgias, com a magnificação do sexo e da alimetação em conjunto. Prova disso eram os bacanais, festas em ode ao Deus Baco, o Deus Greco-Romano do vinho.

Porém, atualmente, o sexo é visto como algo muito restrito, secreto, e, portanto, capaz de fomentar os maiores recalques. Estão aí os psicanalistas.

Já o ato de alimentar-se em conjunto, continuou muito disseminado nas culturas atuais. Prova disso são as importâncias dos banquetes, pique-niques, churrascos, feijoadas, e demais pratos e sobremesas típicos de diversas regiões ao longo do globo e de diversas épocas e estações ao largo dos anos. Não é de se espantar a estranheza que causa alguém a se alimentar sozinho.

E aproveito para indicar o filme "Estômago", produção brasileira, com João Miguel e Babu Santana. Que fala da importância da culinária e do poder que ela distingue em todas as esferas sociais. Bem como de suas sutis relações com o sexo.

E para finalizar, faço alusão ao fato de que, para diversas culturas mitológicas, somos feitos de terra, viemos dela, e para ela voltaremos. E é a fecundidade da terra que nos dá os alimentos para que permaneçamos vivos. E é a fecunidade dos homens que dá mais alimentos à terra, quando já não mais viverem.