Beijo seus seios.
Beijo
seus seios fora
de suas naturais utilidades
são como inúteis
seios fora
do período lactante
tão desnecessárias bocas
abertas
quando não há alimento
a boca moça madura inútil
baba
os seios murchos desnecessários moços
São muitas as semelhanças entre o ato de fazer sexo e o ato de se alimentar.
Sobretudo, são atitudes de extremo valor fisiológico. O sexo e a alimentação são a preservação das espécies. A alimentação a preservação imediata, come-se para manter-se vivo, e viva a humanidade através de ti. O sexo a preservação mediada, faz-se para trazer outrem à vida, e a humanidade viva através da sua descendência.
E participando de tamanha utilidade biológica, não é de espantar que tanto sexo como alimentação sejam atividades extremamente sinésticas. Me custa lembrar de outras atividades que envolvam todos os sentidos concomitantemente e em tamanho grau de êxtase e intensão.
Pois alimentar-se é o paladar e o olfato que percebem os alimentos, e por mais óbvios que sejam esses sentidos no ato da alimentação, não raras vezes se confundem. E por isso quando temos secreções a nos entupir as vias nasais e a nos interromper o sentido do olfato, julgamos que muitos alimentos perdem o gosto, o paladar. Na verdade, nada mais é isso do que nosso confusão sinestésica diante dos alimentos. Entre o que é cheiro e o que é gosto.
Mas além dos dois sentidos químicos, tão basilares no alimentar-se, também temos os demais sentidos se fazendo presente. Pois o vislumbramento do alimento pronto e disposto à nossa frente, bem como o contato do alimento com nossas mãos (reduzido pela civilidade dos talheres) e o contato do alimento com todo nosso sistema digestivo (lábios, língua, palato, dentes, garganta, etc) são a prova da importância da visão e do tato no alimentar-se.
Bem como o som do alimento sendo preparado e sendo mastigado e deglutido, por prazerosos que são, demonstram a importância da audição no alimentar-se.
E assim também se dá o sexo. Com a obviedade da importância do tato (reduzido pelo risco de doenças venéreas). E com a importância do ver, do ouvir, do cheirar e do provar. E não deixa de ser interessante que a palavra provar esteja associada à ideia de testar o paladar.
E sendo tarefas de primordial função biológica, não é de se espantar que tanto o sexo quanto a alimentação tenham sido elaboradas de maneira irresistível pela natureza. E também não é de causar espanto que sejam questões culturais de extrema importância.
Podemos dizer que a função de procriação do sexo e de reenergização dos alimentos foram bastante reduzidas em detrimento das funções sociais de ambos.
E se os homens não podem se livrar totalmente dos limites naturalmente impostos, se esforçam por imaginar, criar e recriar novos limites divinos, com inteligência, através da cultura.
Em diversas sociedades pagãs existiam orgias, com a magnificação do sexo e da alimetação em conjunto. Prova disso eram os bacanais, festas em ode ao Deus Baco, o Deus Greco-Romano do vinho.
Porém, atualmente, o sexo é visto como algo muito restrito, secreto, e, portanto, capaz de fomentar os maiores recalques. Estão aí os psicanalistas.
Já o ato de alimentar-se em conjunto, continuou muito disseminado nas culturas atuais. Prova disso são as importâncias dos banquetes, pique-niques, churrascos, feijoadas, e demais pratos e sobremesas típicos de diversas regiões ao longo do globo e de diversas épocas e estações ao largo dos anos. Não é de se espantar a estranheza que causa alguém a se alimentar sozinho.
E aproveito para indicar o filme "Estômago", produção brasileira, com João Miguel e Babu Santana. Que fala da importância da culinária e do poder que ela distingue em todas as esferas sociais. Bem como de suas sutis relações com o sexo.
E para finalizar, faço alusão ao fato de que, para diversas culturas mitológicas, somos feitos de terra, viemos dela, e para ela voltaremos. E é a fecundidade da terra que nos dá os alimentos para que permaneçamos vivos. E é a fecunidade dos homens que dá mais alimentos à terra, quando já não mais viverem.
04/07/2009
13/06/2009
Cheiro do Ralo
"O Templo é sagrado porque não está a venda."
É bem conhecida a passagem bíblica em que Jesus, indignado, age de maneira intempestiva, a reprimir os comerciantes que se alojavam no templo.
E na esteira do pensamento binário e antinomial que acompanha a humanidade, uma das dicotomias mais presentes e intrigantes é a que se dá entre o Sagrado e o Profano.
E é interessante como o dinheiro é visto como o principal agente profanador, capaz de dessacralizar o mais sublime objeto.
Talvez, por isso, o conselho, em outra famosa passagem bíblica, que diz não se poder ter dois senhores. Ou Deus, ou Mamôn. Ou o sagrado, ou o profano. Ou o santo, ou o dinheiro.
A moeda sempre foi vista como algo moralmente sujo, um mal necessário. E a cobrança de juros, que é a forma de se fazer mais dinheiro a partir do dinheiro, era proibida na Antiguidade e na Idade Média. Cabendo essa tarefa suja, de emprestar a juros, aos judeus, que se lançavam a esse trabalho, uma vez que eram impedidos de realizar outras funções julgadas mais dignas. O Mercador de Veneza, de Shakespeare, esclarece bem tal situação.
Há a condenação à prostituição, que é ceder o corpo, que é templo, por dinheiro. A prática profana do sexo. Instigante é o silêncio em relação à escravidão.
E, por isso tudo, são bastante nevrálgicas as questões referentes a indulgências e dízimos.
Sabemos que o dinheiro pode comprar as coisas belas e úteis. Mas os valores que atribuimos às coisas é de fato bastante subjetivo.
Mas o valor que damos às coisas sagradas, esse é um valor inatingível. O dinheiro não pode comprar o que é sacro. E se o dinheiro compra, sacro não pode ser. Por isso a citação do provérbio oriental no princípio do texto.
Mas sagrado, para nós, pode ser qualquer coisa que não tenha preço. Uma mera fotografia, uma caixinha de jóias sem jóia alguma.
E daí a dura crueldade do personagem de Selton Melo no filme que dá nome a esse post. Ele nada mais é do que um profanador. Pessoas em desespero vem a ele, para vender o que lhes resta de mais sagrado. E ele as humilha, comprando por um baixo preço, ou, o que é pior, se recusando a pagar qualquer preço, por menor que seja.
Mas por outro lado, se contenta em pagar as maiores somas de dinheiro para ter o que acha importante. Seja a bunda, o sexo, um olho de vidro ou uma perna mecânica.
Se recusa a fazer sexo por amor. Um sexo sagrado. Quer comprar o sexo, pagá-lo, profanizá-lo.
E a sagrada figura paterna, ausente em sua vida, ele a compra, por partes, a prestações, para montar seu próprio pai, um robô profano.
É bem conhecida a passagem bíblica em que Jesus, indignado, age de maneira intempestiva, a reprimir os comerciantes que se alojavam no templo.
E na esteira do pensamento binário e antinomial que acompanha a humanidade, uma das dicotomias mais presentes e intrigantes é a que se dá entre o Sagrado e o Profano.
E é interessante como o dinheiro é visto como o principal agente profanador, capaz de dessacralizar o mais sublime objeto.
Talvez, por isso, o conselho, em outra famosa passagem bíblica, que diz não se poder ter dois senhores. Ou Deus, ou Mamôn. Ou o sagrado, ou o profano. Ou o santo, ou o dinheiro.
A moeda sempre foi vista como algo moralmente sujo, um mal necessário. E a cobrança de juros, que é a forma de se fazer mais dinheiro a partir do dinheiro, era proibida na Antiguidade e na Idade Média. Cabendo essa tarefa suja, de emprestar a juros, aos judeus, que se lançavam a esse trabalho, uma vez que eram impedidos de realizar outras funções julgadas mais dignas. O Mercador de Veneza, de Shakespeare, esclarece bem tal situação.
Há a condenação à prostituição, que é ceder o corpo, que é templo, por dinheiro. A prática profana do sexo. Instigante é o silêncio em relação à escravidão.
E, por isso tudo, são bastante nevrálgicas as questões referentes a indulgências e dízimos.
Sabemos que o dinheiro pode comprar as coisas belas e úteis. Mas os valores que atribuimos às coisas é de fato bastante subjetivo.
Mas o valor que damos às coisas sagradas, esse é um valor inatingível. O dinheiro não pode comprar o que é sacro. E se o dinheiro compra, sacro não pode ser. Por isso a citação do provérbio oriental no princípio do texto.
Mas sagrado, para nós, pode ser qualquer coisa que não tenha preço. Uma mera fotografia, uma caixinha de jóias sem jóia alguma.
E daí a dura crueldade do personagem de Selton Melo no filme que dá nome a esse post. Ele nada mais é do que um profanador. Pessoas em desespero vem a ele, para vender o que lhes resta de mais sagrado. E ele as humilha, comprando por um baixo preço, ou, o que é pior, se recusando a pagar qualquer preço, por menor que seja.
Mas por outro lado, se contenta em pagar as maiores somas de dinheiro para ter o que acha importante. Seja a bunda, o sexo, um olho de vidro ou uma perna mecânica.
Se recusa a fazer sexo por amor. Um sexo sagrado. Quer comprar o sexo, pagá-lo, profanizá-lo.
E a sagrada figura paterna, ausente em sua vida, ele a compra, por partes, a prestações, para montar seu próprio pai, um robô profano.
Hermes x Afrodite
São contraditórias as teorias que afirmam uma predominância feminina na pré-história, mas não deixam de fazer certo sentido.
Interessante foi observar o depoimento de um componente de uma sociedade indígena que subsiste às cercanias do Mar da Prata.
Perguntado sobre o motivo por que são vedados, às mulheres, os segredos e ritos de passagem e iniciação. Sua explicação foi que no início o mundo era dominado por elas. Então, eles viraram o jogo. E mantinham tais práticas para manter tais privilégios.
O certo é que encontramos sociedades pagãs e politeístas que são patriarcais. Sendo a Grécia um exemplo muito claro.
Mas não é raro se dizer que foi o surgimento das religiões monoteístas que ajudaram a consolidar as sociedades machistas. A troca da divindade da Mãe Terra pelo Deus Pai.
O fato é que a linguagem poético-mitológica, empregada pelos antigos em suas cosmologias, é frequentemente assumida como uma linguagem feminina, por polissêmica que é.
E as 3 grandes religiões monoteístas basearam seus textos sagrados nesse tipo de linguagem. E por isso hoje sofrem ataques desenfreados da atual sociedade masculina, em busca de sua linguagem lógica, matemática, linear e sem ambiguidades.
Interessante foi observar o depoimento de um componente de uma sociedade indígena que subsiste às cercanias do Mar da Prata.
Perguntado sobre o motivo por que são vedados, às mulheres, os segredos e ritos de passagem e iniciação. Sua explicação foi que no início o mundo era dominado por elas. Então, eles viraram o jogo. E mantinham tais práticas para manter tais privilégios.
O certo é que encontramos sociedades pagãs e politeístas que são patriarcais. Sendo a Grécia um exemplo muito claro.
Mas não é raro se dizer que foi o surgimento das religiões monoteístas que ajudaram a consolidar as sociedades machistas. A troca da divindade da Mãe Terra pelo Deus Pai.
O fato é que a linguagem poético-mitológica, empregada pelos antigos em suas cosmologias, é frequentemente assumida como uma linguagem feminina, por polissêmica que é.
E as 3 grandes religiões monoteístas basearam seus textos sagrados nesse tipo de linguagem. E por isso hoje sofrem ataques desenfreados da atual sociedade masculina, em busca de sua linguagem lógica, matemática, linear e sem ambiguidades.
29/04/2009
Proximidades
Sabe-se, segundo Gaston Bachelard, que não há ciência exata, pois todo conhecimento é aproximado.
Mas é comum separar as ciências físicas e naturais das ciências sociais e humanas, e fazer crer intransponível tal separação.
Mas talvez seja interessante observar que três dos maiores antropólogos que já houve, tiveram formação original em física, no caso do polonês Bronisław Kasper Malinowski e do senegalês Cheikh Anta Diop, e matemática, no caso da luso-brasileira Manuela Carneiro da Cunha.
E o filme "O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias" corroba a principal teoria de Diop e de seu colega congolês Théophile Obenga.
Mas é comum separar as ciências físicas e naturais das ciências sociais e humanas, e fazer crer intransponível tal separação.
Mas talvez seja interessante observar que três dos maiores antropólogos que já houve, tiveram formação original em física, no caso do polonês Bronisław Kasper Malinowski e do senegalês Cheikh Anta Diop, e matemática, no caso da luso-brasileira Manuela Carneiro da Cunha.
E o filme "O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias" corroba a principal teoria de Diop e de seu colega congolês Théophile Obenga.
10/04/2009
Linha de Passe
Dois fatores de coesão são
futebol e religão.
E sendo a religiao muuuuito mais antiga que o futebol,
surge o futebol como religião.
Veja o filme de Walter Salles.
futebol e religão.
E sendo a religiao muuuuito mais antiga que o futebol,
surge o futebol como religião.
Veja o filme de Walter Salles.
05/04/2009
04/04/2009
Cabral e eu

O Afiador de Facas, Malevich
É-me permitido, ao menos em meu blog, emparelhar um poema meu a um poema do Homem de Ferro. E de Pedra.
A JCMN
os homens são fracas
facas de cortar palavras
da bainha a lâmina sai
logo se corta uma palavra
as palavras vão como águas
afiando aquelas facas
éguas que amolam o duro
touro que as ataca
mas mais dourados que sejam
seu falo, seu falo, seu falo
o boi cornado nunca
fecunda o que é do cavalo
http://www.revista.agulha.nom.br/joao05.html
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