24/10/2008

Ética e Metafísica

Todo homem é livre para escolher seu Big Mac

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Ainda sobre ética, me foi muito interessante reparar como é metafísico o preconceito. Esse vício é essencialmente essencialista. Prova disso eram as teorias dos primeiros economistas britânicos. Eles desautorizavam todo auxílio do governo aos pobres. E isso porque acreditavam que os pobres seriam sempre pobres, não importando quanto dinheiro lhes fosse dado. Ou seja, pobreza (e riqueza também, é claro) eram muito mais do que meras questão financeiras. Eram questões bioculturais. E justificava-se tal argumento da seguinte maneira: se o pobre ganha 500 reais, tem mulher e 3 filhos, e o governo dobra sua renda, o pobre, em resposta faz mais 5 filhos, e continua tão pobre quanto antes, e se o governo teima e novamente dobra sua renda, o pobre teimoso vai lá e faz mais 10 filhos. Assim até o infinito. Do que podemos imaginar um mendigo com uma renda mensal de 128 mil reais e com uma prole de 13 mil herdeiros. E não é brincadeira, era teoria, está nos livros, faz menos de duzendo anos. Procure por David Ricardo e Thomas Malthus.

15/10/2008

Cabral

Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega ao abdômen,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.

Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.

06/09/2008

citações

Heráclito de Éfeso: "O Universo é gerado não segundo o tempo, mas segundo a reflexão."

Clarice Lispector: "Há que se entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo. Como se se recriasse a violenta ausência de sabor da água"

Homo Sapiens

Devemos estar atentos para as diferenças que há entre "lex tradita" e "lex scripta" nos estudos de compreensão dos povos.

Pois, há um hiato entre os costumes e tradições de um povo e seus códigos, sejam estes últimos religiosos ou laicos.

Há aspectos dos códigos que estão em conformidade com os costumes, e talvez sejam a maioria.

Porém, há aspectos dos códigos que estão além dos costumes, isto é, são como que metas almejadas, ainda não alcançadas, vide o artigo quinto da nossa Constituição.

E há, também, aspectos do código que estão fora dos costumes, seja por anacronismo, ou porque vêm de "cima para baixo"(leis, que são formuladas por uma elite nas câmaras e parlatórios, que não vão de acordo com os anseios da população que essa elite representa. Pelo menos na democracia representativa. E cabe a cada um decidir se concorda com "vox populi, vox Dei). Os exemplos mais comuns são as leis que "não pegam".

Então, cabe dizer que o Código de Hamurábi não defini os sumérios, como o Lei Mosaica não define os hebreus, ainda que sejam de enorme ajuda na compreensão dos respectivos.

Bem como qualquer estudioso do século XL d.C. que pretenda estudar a sociedade brasileira atual não deve se contentar apenas com nosso Código Civil e nossa Constituição.

Há, além dos textos legais, textos históriocos, biográficos, mitológicos, poéticos, ciêntíficos que podem ajudar os estudiosos do assunto. Isso a partir da Idade do Bronze, que teve início há 6000 anos, e foi o período que testemunhou o surgimento da escrita.

Mas, visto que as estimativas do surgimento dos primeiros hominídeos remontam há mais de 4 milhões de anos, e que o surgimento da espécie homo sapiens remonta a mais de mil séculos, devem surgir outras técnicas de estudo dos povos que não se resumam aos textos, sejam eles oficiais ou não.

E pra essa tarefa, são de grande valia a arqueologia, a paleontologia, a biologia, a geologia, e a semiologia (ou semiótica), que expande para o campo dos signos não-linguísticos os estudos de linguística, e com certeza isso é de grande valia para a compreensão de todos os povos, possuam eles escrita ou não.

E uma citação de Montesquieu: "um povo defende mais seus costumes que suas leis." Não é à tôa.

E, por último, devemos saber que os estudos socias e culturais são antes de tudo um convite à tolerância. Devo saber que quem não pensa como eu, não é inteligente como eu, na medida que isso significa que quem pensa de outro jeito, é inteligente de outro jeito.

E como bem disse Levi-Strauss: "bárbaro é o que acredita na barbárie."

03/09/2008

Logo

Osmar me emprestou um livro do que costuma se chamar de "vulgarização científica", onde talvez fosse mais cômodo dizer disseminação, visto o carácter pejorativo que a palavra vulgar pode assumir.

Mas o que importa é o título do livro, "Uma Breve História do Tempo" de Stephen Hawking ( o tal que ocupa atualmente, na Universidade de Cambridge, a cadeira que já foi de Newton).

Mas, a parte que seja muito bom o livro, o que me chama a atenção é mesmo o título, que comprova que há poesia até num tratado de astronomia.

Vejamos: a frase que compõe o título possui 5 palavras, afora o artigo indefinido e a preposição, nos restam 3 substantivos, todos eles pertencendo a um mesmo grupo semântico.

Breve: indica o que é de curta duração.

História: indica algo de duração maior, porém ainda limitada.

Tempo: indica o próprio tempo em sua essência e infinitude.

E do modo como as palavras estão dispostas: breve - história - tempo. Nos dá uma noção de caminhada, do mais curto, para o mais comprido até o infinito. E a noção de caminhada nos traz de volta a noção de movimento que nos leva novamente a noção de espaço-tempo, que Einstein concatenou muito bem.

Como também nos leva a própria noção de ciência, que é um longo e infindo caminhar, mas que começa com o primeiro passo, no primeiro livro, na primeira idéia.

26/08/2008

um vírgula cinco

Morri com 23 anos de idade no ano de 2006; e hoje, dia 26 de agosto de 2008, com 25 anos de idade, faz exatamente 18 meses (1,5 anos) que renasci. Hoje, então, estou na metade do meu segundo ano d.C. E muito feliz por isso.

25/08/2008

A Pedidos

Então, como minha digníssima Carol pediu, aqui vai um post improvisado.

Como certa vez escreveu o etnólogo, Levi-Strauss, o homem é sobretudo um classificador. E isso tem origem no que o etnólogo, Titiev, chama de mentalidade algébrica. Portanto, sendo o que nós somos, classificadores, está longe de ser um absurdo que classifiquemos a nós mesmos. E o parâmetro é sobretudo o financeiro. Então quando Marx fala em classes econômicas, está muito distante de um completo desvairio, apesar de não poder se dizer que absolutamente todos os membros de uma mesma classe mijem em pé ou sentados, classificações são de muita valia para construção de hipóteses e modelos teóricos em ciências sociais, sobretudo sobre o parâmetro monetário.

Mas como diz Chomsky, é uma ingenuidade imaginar que haja uma classe dominante extremamente consciente e arquitetada. Mas há de fato uma minoria possuidora que possui muitos interessses em comum.

Se sabe que a religião é intenso fator de coesão social, talvez tenha sido o primeiro, desde os tempos da pedra velha e lascada. Porém, a partir da idade do metal, com o surgimento do comércio em larga escala, e com a ereção dos primeiros impérios, a religião passou a ser também fator importantíssimo de dominação e alienação. O que fez Marx denominá-la ópio do povo, o que de fato vinha sendo durante milênios até, inclusive, as nossas idades moderna e contemporânea.

Os socialistas e comunistas em geral queimam a casa para pegarem o rato, ie, já que durante muitos séculos em muitas partes a religião foi e vem sendo usada para fins espúrios, acabe-se com a religião.

Eu creio numa exeriência religiosa legítima e pessoal, mas também concordo que a esfera religiosa dá espaço para dominação de massas incultas. Por isso defendo a separação entre Estado e Igreja, a começar pela extinção das religiões oficiais de Estado.

E qualquer um que tenha entrado minimamente em contato com estudos antropológicos sabe que não há religião pura, cultura pura, raça pura. Tudo é um constante misturar-se, tudo é um enorme sincretismo. Então, posso dizer que não só eu, mas a história e os povos, mesmo que não o saibam conscientemente, são pluralistas. E não é à tôa que o nascimento de Cristo é comemorado na mesma data de um dos maiores deuses dos agricultores e pastores pagãos, e também não é mera coincidência que essa data seja, no Hemisfério Norte, exatamente o marco do soltício de inverno. Que é quando se inicia o período mais frio, escuro e menos fecundo do ano, mas também se inicia a esperança de que o a luz e o calor retornarão na primavera.

Enfim, dei toda essa volta para dizer que apesar de criticar a religião não me posiciono dogmaticamente contra ela. Afinal, criticar não é sinônimos de não gostar e muito menos de mal-dizer, a prudência se deu mais pelo fato de ter citado Karl Marx, porque não pretendo ser misunderstendido.

Agora, sabemos que durante milênios a religião foi bem (ou mal, depende do ponto de vista) usada como fator de dominação e alienação, repito. Porém, sabemos também que, sobretudo nas sociedades ocidentais, vamos passando por uma forte laicização, o que não deve corresponder exatamente num decréscimo das práticas religiosas, mas numa descrença nas religiões institucionalizadas. Enfim, não temos muito mais paciências para os conselhos políticos e éticos do padre, do bispo do papa e etc. Falo isso de maneira geral.

Então te pergunto, se a Igreja não pode mais dar o aval para as opressões diante de uma sociedade laica, o que deve substituí-la. E te respondo, o Mercado.

Se antes tínhamos hordas de analfabetos obrigados a engolir, nas missas, as ladainhas em latim clássico do que entediam muito pouco, quase nada. (E cujo acesso às escrituras era duramente vedado (e isso está longe de ser um privilégio do latim cristão, no Egipto e etc era o mesmo que se dava)). Hoje temos multidões matematicamente analfabetas que são obrigadas a engolir números e mais números que, presumidamente, traduzem o mundo nos noticiários.

Enfim, os economistas substituiram os frades, e no lugar das escrituturas e suas interpretações, hermenêuticas e exegeses, temos, então, planilhas e papers. E os mendigos, que não têm conta em banco, e provavelmente também não têm alma, mas que são muito espertos, já estão saindo das portas das Igrejas e indo pras portas das agências bancárias. E outros ainda mais espertos, e longe de ser mendigos, aliam religião e finanças a ponto de erigir um império das comunicações.

Logicamente que não se propõe o fim das religiões e dos mercados. Mas como Luthero aproximou do povo as escrituras, está mais que na hora de aproximá-lo então da matemática, que é a língua que diz cada vez mais o mundo, não só natural, mas também social.

Há que se evitar que alguns poucos ditem tudo numa linguagem que todos os outros não entendem. A democratização começa aí.

ps: muito se tem, aqui no nosso país, o conceito de gênio iluminado, são figuras de destaque histórico, sejam cientistas, religiosos, políticos, artistas, que se tornam verdadeiros heróis no imaginário comum. Nada mais falso. Prova é que dois estudiosos citados aqui foram capazes de proferir muitas estupidezas.

Karl Marx tinha formação em filosofia, direito e história, seu conhecimento de matemática era pífio, e isso colaborou enormemente para a fragilidade de muitas de suas teorias.

Já Martinho Lutero foi capaz de dizer que Kepler, quando este último trabalhava numa teoria matemática da astronomia em oposição às peripécias da astrologia, não passava de um astrólogo inútil e petulante e que as pessoas sensatas não deviam lhe dar ouvidos. E já sabemos bem a importância que teve Kepler, junto com Copérnico, Galileu e Newton, nas física e astronomia moderna.